Crepúsculo, a culpa é nossa…

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Antes de mais nada, Crepúsculo é uma série ruim?

Sim, horrível, eu nunca vi nem li, mas pelo pouco que eu sei posso afirmar isso sem maiores duvidas (eu não preciso pular de um precipício para saber que é uma idéia estúpida) . Um história sobre a disputa de um vampiro de 100 anos virgem que brilha e um lobisomen depilado pelo amor de uma garota sem sal, não tem como ser boa, simplesmente não tem.

A verdadeira pergunta é: “o fenômeno crepúsculo é algo ruim?”

A resposta para essa pergunta é um pouco mais complicada.

Ao meu ver a série sobre Vampiros Purpurinados é na verdade um grande “vai tomar no cu” das mulheres para os homens e para a cultura pop em geral. Um vai tomar no cu atrasado, mas esperado.  Durante anos a cultura pop, principalmente a geek, simplesmente ignorou as mulheres, quando elas apareciam , em filmes, HQs ou seriados, quase sempre eram apenas a idealização de alguma fantasia genérica geek.

Quase tudo era feito para nós, não existiam materiais com apelo feminino real. Mesmo recentemente em pleno século XXI onde no mundo ocidental a igualdade de sexos já deveria estar ao menos em teoria mais assegurada. Harry Potter, por exemplo, é um livro que apesar de ter uma autora mulher retrata da infância e a adolescência de um garoto, os problemas, dramas e comédias descritos neles são sempre da perspectiva do personagem principal. Para os leitores homens isso é ótimo, pois eles podem se identificar com muitos dos  dramas  descritos, o mesmo não ocorre para as leitoras mulheres, um exemplo, seria o quarto livro, quando Harry tem de convidar alguma garota para o baile, esse é uma situação desesperadora que qualquer um que já teve entre 13 e 17 anos pode se relacionar, agora, e a perspectiva feminina da história? Afinal, a iniciativa é sempre esperada do homem, portanto, eu creio, o drama das mulheres nessa situação deve ser completamente diferente, ao invés do medo de tomar a iniciativa, outros sentimentos devem estar envolvidos na espera de alguma alma caridosa aparecer e fazer o convite.

E veja bem, não é que não existam filmes e series girlys, eles existem, mas não no mundo geek, e mesmo fora dele eles raramente apelam de forma obvia para os desejos sexuais das mulheres, afinal, aparentemente Hollywood acha que mulheres não gostam de sexo como homens, só que elas gostam (eu sei que vocês gostam) elas apenas falam menos sobre isso. Esse ponto é muito bem resumido nessa tirinha do XKCD.

Se eu e a tirinha estivermos errados, se manifeste

Com essa dominância do gosto masculino era óbvio que um dia as mulheres fossem responder, o que não se esperava é que a resposta fosse ser tão baixa, afinal, Crepúsculo é o equivalente de um chute no saco da cultura geek. Para qualquer um, dotado de um mínimo de inteligência, fica óbvio que a saga do vampiro pedófilo afeminado (ele tem 100 anos e ela tem 15…) e da garota com sérias tendências a necro e zoofilia é um conjunto bagunçado de fantasias femininas amarradas por um pseudo roteiro. Basicamente crepúsculo esta para as mulheres assim como Transformers 2 esta para os homens. Um contém tudo aquilo que, eu creio ou não teria vendido tanto, uma mulher idealiza em um romance, e o outro tudo que o homem idealiza como awesome (gostosas, carros, robô gigantes e explosões). Ambos são porcarias, ambos são notórios por serem porcarias e ambos deram muita grana para seus idealizadores.

O problema é que crepúsculo entra em muito mais evidência do que transformers porque até pouco tempo ele estava quase que completamente sozinho em seu nicho. Ele não tinha concorrentes, logo, ele concentrava muito mais atenção do que concentraria caso o mercado de produtos com apelo feminino na cultura pop fosse um mercado competitivo e não um monopólio. Já transformers não, ele tem vários concorrentes, apenas para citar alguns recentes, temos Mercenários (comédia involuntária) e Machete (melhor filme do ano), filmes feitos de forma aberta e declarada visando unicamente o publico masculino.

Isso também prejudica a questão da qualidade, quase todo produto de qualidade é obtido por meio da tentativa e erro, afinal para cada 1 livro ou filme bom que é feito, outros 1000 horríveis são lançados. É uma questão puramente matemática, uma hora alguém acerta e faz algo bom. Como o nicho de apelo sexual para mulheres geeks ainda é nascente, pode ser que passe um tempo até que algo minimamente bom apareça.

Mas por isso mesmo, a culpa é nossa, com certeza se tivesse existido mais espaço no mundo geek para coisas femininas existiriam mais obras sobre o tema e crepúsculo não teria feito tanto sucesso e vendido tanto, seria provavelmente apenas como um daqueles milhares de livros que surgiram na cola do sucesso de Harry Potter, e que apesar de terem uma venda razoável nunca estiveram realmente em destaque.

Ahhh sim, e se você é homem e gosta de Crepúsculo? Bom ai existem duas respostas, uma, é que você esta mentindo para a sua namorada e com medo de ser denunciado por algum amigo troll contou essa mentira mesmo para eles (sexo com freqüência vale o preço de ser ser zuado periodicamente então é uma escolha justa), a segunda, bom, a segunda é a de que talvez você esteja jogando no time errado…

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Uma resposta para “Crepúsculo, a culpa é nossa…”

  1. Ana Carolina Disse:

    Queridos!
    1) Fiquei muito contente de ver vocês de volta à ativa!! =D É muito bom ver que, apesar de ocupados, vocês acham um tempinho para o blog e para nós.

    2) Comentário gigante. (culpa de vocês que falam coisas interessantes e eu me empolgo!)

    Eu li o diabo da saga, inteira, antes de ela vir para o Brasil (mas já era um sucesso mundial). Concordo com a avaliação de que a relevância subjetiva, se alguma há, dos livros, é diferente para o público feminino e o masculino, mas não vejo nenhuma novidade material na saga. Não houve inovação do feminino na cultura pop em geral, houve sim na cultura super massificada. Na verdade, os livros são uma grande continuidade.

    Rapidamente: a saga toda é um romance água com açúcar. Só isso, nada mais. Se há algo de fantástico/mágico é apenas porque a cultura pop está resgatando o fantástico (e se fundindo com a muito do universo geek nesse ponto). Não vou tentar explicar a razão desse resgate, basta dizer que não considero Crepúsculo algo geek, por mais que a cultura geek tenha absorvido algo da saga, devido a afinidades: guerra de vampiros com lobisomens, algumas “teorias” sobre vampiro. Apesar da recepção geek, é uma história de amor como qualquer outra, desde que a semântica (aqui como conjunto de conceitos) dos relacionamentos amorosos se firmou no século XIX, até as mais chatas comédias românticas do século XX.

    Se o diabo do livro não conta nada de novo, onde está a novidade? Na publicidade? Crepúsculo é o Harry Potter com florzinhas, não na história, claro, mas na projeção midiática e comercial. Vocês lembram que o Harry Potter 1 foi comemorado como o livro que fez as crianças voltarem a ler? Idos de 98. Harold Bloom odiava que se dissesse isso, ele odiava Harry Potter, mas é fato. Uma publicidade assim, em torno de um livro, criando um blockbuster de papel, acho que só Paulo Coelho havia feito, sem tanto sucesso.

    Espera! Se o conteúdo é “Amor de salvação” simplificado e a publicidade já tinha sido feita com Harry Potter, cadê a novidade? Aí vem a impressão de “chute no saco!” As mulheres são um grande mercado e um enorme mercado de livros de amor (há muito tempo! A própria heroína romântica é uma leitora voraz). Não que a moça tenha escrito os livros pensando já em vendê-los, mas a editora (e ela agradece a editora no final do livro por tê-la projetado no mundo editorial), essa sim! Era uma oportunidade de fazer com a literatura para mulheres (no melhor estilo sec. XIX, novamente) o que fora feito com Harry Potter. Publicidade = Blockbuster = Lucro.

    Tenho a impressão que, se algo vai ficar para daqui 20 ou 30 anos, será a surpresa no fato de ter dado certo. A mesma semântica dos relacionamentos íntimos do século XIX, que descrevia o homem como misterioso, soturno, seguro e, ao mesmo tempo, gentil e completamente dedicado à amada, que por vezes aparece como ridícula na própria cultura pop (pense em As good as it gets), continua firme e forte!

    Crepúsculo não é uma novidade, é uma continuidade. Continuidade da semântica, continuidade da publicidade, até continuidade da projeção econômica da diferença masculino/feminino (deu lucro com os homens? vamos fazer um rosa e ganhar dinheiro com as mulheres agora!). Se há relevância para a saga, é mostrar que tudo continua igual ao século XIX, mas agora dá mais dinheiro!

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